Almeida sentou no banco da praça com o pessoal, pegou o tamborim e
batucou. No balanço, os amigos entraram na onda - um pegou o cavaco, outro o
repique de mão, mais um chegou com o bandolim e o samba saiu. Numa harmonia que
casou com o improviso, o grupo emendou canção atrás de canção e todo mundo
parou pra olhar.
Depois de alguns sambas mais animados, bem clássicos das gafieiras,
Almeida parou e refletiu. Pensou sobre o que estava sentindo e a verdade é que
estava triste. Era um quarentão que não andava em sintonia com o mundo. Depois
de alguns anos vividos com a mulher que casou por obrigação, mas amou por
vontade própria, teve que aceitar a realidade que mudou sua vida desde então.
Tomada por um câncer, ela partiu pra longe e Almeida ficou sozinho. Sete anos passaram-se,
tentativas vãs de amar novamente também, e ele não conseguia mais sentar no
banco da praça e tocar seu tamborim com os amigos. Sempre se lembrava de quando
rodava na gafieira com a Lucinha Pé-de-valsa, ou melhor, Pé-de-samba. Era
quando o povo admirava o amor expresso em movimentos rápidos e sorrisos largos,
face frente à face.
Só que agora todo mundo se encantava com o toque alegre que Almeida fazia
soar no bairro. Havia muito tempo que tanta gente se juntava para ver sua arte.
O antes alegre Almeida, que dançava com os braços ao redor de seu bem, parou de
tocar para ser sincero consigo mesmo e assumiu seu desconsolo. Então disse aos
amigos: “quero Lamento”. O rapaz do
banjo introduziu, e todos, como bons chorões, emendaram o velho chorinho de
Pixinguinha, deixando Almeida à vontade ao relembrar de dias mais felizes.
Uma moça saiu de casa quando ouviu as notas tão conhecidas de outros
tempos. Laura viu o pai fazendo algo que desde pequena não via e o choro tomou
conta não apenas de seus ouvidos, mas também de seu rosto. As lágrimas rolavam
de alegria, e nesse momento ela chegou junto a cantar: “morena, tem pena, mas
ouve o meu lamento...”, e o pai sorriu. Quantas lágrimas Almeida já tinha
derramado! Dessa vez chorou a partir das mãos e da emoção das lembranças.
Quando tudo acabou, as cerca de vinte pessoas que estavam vendo soltaram
um vigoroso aplauso. Almeida abraçou os amigos, beijou a testa da filha e,
juntos, foram para casa. Ele estava feliz. Almeida amava um amor que não se
apagou com as tragédias, amor que o fez amar Lucinha. E por amar, estava realizado. Ao compreender
isso, percebeu que poderia seguir sua vida na certeza de que fez alguém feliz,
não por esforço, mas porque amou e se deixou ser amado pela melhor dançarina de
samba da cidade.
As pesadas lágrimas findaram e deram lugar à paz.

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