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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Fim de tarde


Almeida sentou no banco da praça com o pessoal, pegou o tamborim e batucou. No balanço, os amigos entraram na onda - um pegou o cavaco, outro o repique de mão, mais um chegou com o bandolim e o samba saiu. Numa harmonia que casou com o improviso, o grupo emendou canção atrás de canção e todo mundo parou pra olhar.

Depois de alguns sambas mais animados, bem clássicos das gafieiras, Almeida parou e refletiu. Pensou sobre o que estava sentindo e a verdade é que estava triste. Era um quarentão que não andava em sintonia com o mundo. Depois de alguns anos vividos com a mulher que casou por obrigação, mas amou por vontade própria, teve que aceitar a realidade que mudou sua vida desde então. Tomada por um câncer, ela partiu pra longe e Almeida ficou sozinho. Sete anos passaram-se, tentativas vãs de amar novamente também, e ele não conseguia mais sentar no banco da praça e tocar seu tamborim com os amigos. Sempre se lembrava de quando rodava na gafieira com a Lucinha Pé-de-valsa, ou melhor, Pé-de-samba. Era quando o povo admirava o amor expresso em movimentos rápidos e sorrisos largos, face frente à face.

Só que agora todo mundo se encantava com o toque alegre que Almeida fazia soar no bairro. Havia muito tempo que tanta gente se juntava para ver sua arte. O antes alegre Almeida, que dançava com os braços ao redor de seu bem, parou de tocar para ser sincero consigo mesmo e assumiu seu desconsolo. Então disse aos amigos: “quero Lamento”. O rapaz do banjo introduziu, e todos, como bons chorões, emendaram o velho chorinho de Pixinguinha, deixando Almeida à vontade ao relembrar de dias mais felizes.

Uma moça saiu de casa quando ouviu as notas tão conhecidas de outros tempos. Laura viu o pai fazendo algo que desde pequena não via e o choro tomou conta não apenas de seus ouvidos, mas também de seu rosto. As lágrimas rolavam de alegria, e nesse momento ela chegou junto a cantar: “morena, tem pena, mas ouve o meu lamento...”, e o pai sorriu. Quantas lágrimas Almeida já tinha derramado! Dessa vez chorou a partir das mãos e da emoção das lembranças.

Quando tudo acabou, as cerca de vinte pessoas que estavam vendo soltaram um vigoroso aplauso. Almeida abraçou os amigos, beijou a testa da filha e, juntos, foram para casa. Ele estava feliz. Almeida amava um amor que não se apagou com as tragédias, amor que o fez amar Lucinha.  E por amar, estava realizado. Ao compreender isso, percebeu que poderia seguir sua vida na certeza de que fez alguém feliz, não por esforço, mas porque amou e se deixou ser amado pela melhor dançarina de samba da cidade.

As pesadas lágrimas findaram e deram lugar à paz.

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