Na minha infância em que eu tive tudo o que precisei, mas longe de ter riquezas, meu passatempo favorito era o futebol. Não importa quando, onde, com quem, jogar futebol era uma paixão fundamentada em uma razão de estar em boas condições físicas: a bola.
Ela era minha companheira inseparável, sempre presente nas horas certas (e incertas). Porém, era de praxe que uma bola não tivesse mais do que uma semana de vida ao meu lado. Até então só me era permitido possuir bolas de péssima qualidade, leves e fracas, daquelas que o vento controla, e não você. Contudo, elas eram baratas, e minhas pechinchas semanais moeda por moeda de vinte e cinco centavos faziam com que elas fossem compradas aos montes nas mercearias. E assim eu perdia facilmente minhas paixões (as bolas) e as retomava com um pouco de dinheiro.
Num belo dia, cheguei da escola e quis jogar bola, mas minha vontade não foi saciada pelo fato de ter perdido três bolas nos últimos cinco dias. O dinheiro havia acabado, e eu estava impossibilitado de reaver a minha grande paixão, de repossuir a companhia mais prazerosa que existia: a bola de futebol. Em meio a esta grande agonia, catei alguma grana no meu roupeiro, e tive uma surpresa inacreditável: dentro dele estava guardada uma nova bola! E não era uma bola qualquer, não. Era uma réplica da bola da copa! Uma bola maravilhosamente bem acabada com um couro emborrachado e tão macio a ponto de tornar um chute um exercício ainda mais delicioso. Tinha mais precisão e mais força, além de não doer se batesse em alguém. A bola permitia um controle ainda mais tranqüilo dela mesma enquanto eu jogava. Foi um dos melhores presentes que o meu pai poderia ter me dado, pois unia desejo e necessidade. Ela era uma nova paixão perfeita em um momento perfeito.
Eu sabia que a bola havia sido cara, e seu valor para mim era enorme financeiramente e sentimentalmente. Ela era diferente e melhor que todas as outras paixões, quero dizer, bolas que eu já tive. Precisava de um cuidado extremo, e eu o tive durante uma semana. Jogava sozinho, não deixava ninguém tocar na bola a não ser com as mãos para admirar o que era somente meu. Eu não a dividia com ninguém, tinha medo que alguém não tivesse o mesmo zelo que eu tinha, e não queria que desfrutassem da minha paixão absoluta.
No entanto, cansado de tanto jogar futebol sozinho, decidi convidar uns meninos da vizinhança, a fim de compartilhar momentos perfeitos com aquela bola fenomenal. Além do mais, era uma oportunidade minha de demonstrar todo o futebol que eu tinha guardado por uma semana. Minha errônea generosidade, aliada à prepotência, ensinaram-me uma lição inesquecível.
Ao jogar com minha bola no meio da rua, corria o risco de perdê-la com um chute sem direção de algum tolo, ou de algum carro que a atropelasse. No fatídico momento em que a bola estava nos pés de um pé-torto, um ônibus vinha no caminho, já bem perto. Gritei: - segura a bola! Não a deixe escapar! - para o bobão que possuía o controle dela. E o retardado garoto parece não ter me ouvido. Quando o ônibus se aproximou, ouvi o som mais aterrorizante de toda a minha vida: “BUM!”
O próprio assassino imbecil trouxe para as minhas mãos aquilo que eu poderia chamar de um cadáver. A minha bola estava com um buraco enorme. Tanto faz como foi que ela explodiu, e que a culpa foi do moleque. Ele não poderia redimir-se com uma bola igual. Afinal, ela era inigualável, era a maior paixão que eu, um garoto de 10 anos, tive em toda a minha vida. E estava em minhas mãos totalmente inutilizável. Eu não tinha palavras, apenas lágrimas incessantes desciam pelo meu rosto naquele instante. Nada a fazer nem a falar, apenas chorar. Perdi meu grande amor. Porque dividi. Porque deixei sob o controle de outro alguém uma única vez, quando deveria estar sempre somente sob o meu controle. Estava apenas à minha vista, quando deveria estar nos meus braços. Sempre em meu braços.

Maravilhoso. Muito bem escrito, enfim, perfeito! :)
ResponderExcluirÉ doloroso dividir nossas coisas,embora o mundo grite para que sejamos altruístas.No entanto,na maioria das vezes somos tomados por ondas de ciúme.Parabéns pelo blog,pelas opiniões e principalmente pelos textos bem escritos.
ResponderExcluirAo ler esse texto, relembrei um passado distante em que via meu lindo e pequenino sobrinho jogando com sua inseparavel bola, ficava olhando e pensando: o bichinho esta jogando sozinho, cade os amigos dele? mas só agora depois de ler esse lindo texto, descobrir que ele era egoista, kkkkkkk, ainda bem que isso é passado. Tia Mônica fica muito orgulhosa em saber que tem um sobrinho tão inteligente, que descreve seus momentos de forma tão linda. Parabéns!!! Adorei o texto. bjsss
ResponderExcluir